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O que é essa tal filantropia comunitária nas consultorias do ICOM?

Foto: Freepik

Por Mariana de Assis

Desvelar fatores implicados no desenvolvimento e promoção da filantropia comunitária, alinhada à minha pesquisa, permitiu descobrir importantes evidências que vale a pena compartilhar.

A sistematização da experiência de fortalecimento de organizações de base comunitária  por meio das consultorias do Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICOM) traz, como ponto de partida fundamental, que a consultoria é uma estratégia de filantropia comunitária. Isso significa dizer que, a partir da prática e da experiência, há uma ação externa estratégica que facilita a busca de soluções próprias para os desafios das comunidades locais, a partir do reconhecimento de vozes e repertórios a elas pertencentes¹. 

Calma, que  ao longo da leitura vai fazer todo o sentido a pergunta que está no título desse artigo.

As consultorias do ICOM são um serviço gratuito que proporciona acesso a orientações,  ferramentas e conteúdos que contribuem com o fortalecimento de grupos e organizações de base comunitária na Grande Florianópolis. Essas  consultorias tiveram origem na organização em 2007, no primeiro projeto de desenvolvimento institucional chamado Fortalecer², integrando um dos objetivos específicos:

“Oferecer assessoria personalizada às ONGs participantes, de modo a qualificar a sua gestão, fortalecer a sua identidade institucional e apoiá-las na comunicação e na construção de parcerias e alianças estratégicas”.

De lá pra cá, já foram atendidas 2.834 iniciativas, somando  mais de 4 mil horas de formação.

Os temas tratados nas consultorias, como por exemplo: apoio na criação e formalização de uma iniciativa social; compreensão da legislação brasileira sobre sociedade civil organizada, mobilização de recursos e rotinas contábeis, são baseados na metodologia de desenvolvimento institucional do ICOM, que analisa dimensões internas e externas fortalecendo a missão de grupos e organizações e o seu posicionamento estratégico na sociedade. Isso indica que o que se busca desenvolver e aprimorar não é somente a dimensão de gestão das organizações (capacidades, estruturas, gestão, procedimentos, instrumentos), mas também sua dimensão sociopolítica (identidade, base social, cultura organizacional, comunicação, protagonismo no espaço público, alianças e padrões de interação, etc.).

Clique aqui e acesse  o Método de Desenvolvimento Institucional das Consultorias.

Esse serviço é oferecido pela equipe do ICOM, que ao se desenvolver dentro da organização e acompanhar as consultorias, internaliza capacidades para  atender as organizações e grupos. Também são firmadas parcerias com instituições especialistas em determinadas temáticas, sendo disponibilizados no rol de consultorias.

Os atendimentos acontecem no formato online ou presencial, na sede do ICOM ou na sede da organização solicitante, sendo realizada a partir da demanda espontânea e por ordem de solicitação por meio de um formulário online. No formulário, são solicitadas informações sobre a iniciativa, localização, causa, número de beneficiários, número de membros que a compõem e principais dúvidas que demandam ajuda do ICOM. As iniciativas que, por algum motivo, não conseguem acessar o formulário online, também são acolhidas por outros meios (telefone, WhatsApp), ficando a coleta de dados para o momento do atendimento.

O período de atendimento das consultorias varia entre uma e duas horas – dependendo do assunto e acordos pré-estabelecidos – e ocorrem uma vez por semana. As consultorias podem ser pontuais, em torno de um assunto específico, ou continuadas, para aqueles casos em que a organização precisa de mais atendimento e acompanhamento do seu trabalho.

Em um dos casos, assessorei uma organização que chegou até nós por meio do e-mail. Nossa conversa foi presencial, realizada na sede do ICOM, iniciando com um bom cafezinho e apresentação de nossas ações. A gestora dessa organização nos informou que chegou até nós por indicação do  Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS), que a orientou a nos procurar para apoio na construção do plano de ação e posterior renovação de registro no respectivo conselho.Na conversa, explicamos o passo a passo de como funciona o Conselho, sua importância e, em seguida, analisamos o documento, pontuando e refletindo sobre ações importantes contidas nele. Juntas, passamos item por item do formulário para tirar dúvidas. Como encaminhamento, organizamos uma agenda de acompanhamento para preenchimento do formulário e o acompanhamento até envio junto ao respectivo Conselho.

‘‘A equipe técnica ficou muito feliz pelo resultado alcançado no que diz respeito à manutenção do registro no CMAS. Esse resultado foi graças à assessoria prestada” – Depoimento no formulário de avaliação da consultoria, 2022.

Quando uma organização nos procura, é estabelecido um forte vínculo de confiança³ – característica fundamental da filantropia comunitária – ao compartilhar seus desafios institucionais e comunitários. E por que é tão importante essa palavra? Bom, em uma rápida pesquisa no Google, é possível verificar que confiança vem de confidere, que significa fé, ou seja, fé em algo ou alguém, mesmo sem ainda enxergar os resultados.

Nesse caso, chamo atenção para a confiança que parte das organizações e grupos em relação aos processos de assessoramento. Ou você acha que é só a pessoa que doa, que apoia tecnicamente, que deve confiar? Filantropia comunitária se trata de reconhecer o poder das comunidades, e isso significa que, aparentemente, essas comunidades e seus atores não são reconhecidos diante de sua inteligência social por seus apoiadores. Então ouso falar que, mais do que reconhecer o poder e ativos da comunidade, nós precisamos fazer com que as organizações e grupos confiem em nós.

Neste trabalho, o ICOM orienta, oferece detalhes, lidando com a realidade corrente e servindo como uma ponte que fortalece o tecido social do território. Shein (2008) nos apresenta esse tipo de consultoria como de “médico-paciente”. Para o autor, “nesse modelo, o cliente assume que o consultor trabalha a partir de padrões profissionais, que a venda é feita com responsabilidade, baseando-se em dados confiáveis de que a consultoria vai realmente ajudar a resolver o problema”. (SHEIN, 2008, pág.32). Na perspectiva do autor, na abordagem de uma consultoria “médico-paciente” a organização ou grupo informa seus problemas, é realizado um raio-x (diagnóstico) e depois recomendado métodos para solução (prognóstico).

Em outra experiência, assessorei um coletivo que tinha interesse em se formalizar como associação para ter acesso a mais recursos. As pessoas que o compõem conheceram o serviço de consultoria do ICOM em um evento, e logo realizaram agendamento online. Ao dar as boas vindas e me apresentar, passei a palavra para o grupo que estava composto por cinco pessoas. Eram ativistas e compartilharam as motivações de sua origem e atuação com a causa da equidade racial. Que há três anos vinham  apoiando jovens com oficinas de dança, teatro e música em Santa Catarina. Para eles, aquele era um momento muito especial, por se identificarem comigo – mulher negra – e receberem apoio gratuito, acrescentando que “não imaginavam que existia uma organização como o ICOM”. No momento do atendimento, percorri junto ao grupo uma trilha de aprendizagem que o fez refletir sobre sua atuação e tirar dúvidas sobre a legislação vigente, alguns conceitos, dinâmicas de trabalho e desafios da formalização. As interações e sentimentos desencadeados no momento da consultoria permitiram perceber coisas não vistas até então no coletivo, que por preservação de seus valores e características próprias opta por não seguir a estrutura e lógica de funcionamento de uma organização com CNPJ. Inclusive, os membros fizeram críticas super pertinentes ao baixo apoio a grupos e coletivos que trabalham com temáticas sensíveis e que são atores importantes na garantia de direitos.

‘‘O atendimento do ICOM tem um efeito terapêutico. Sempre saio da conversa renovado, entusiasmado e com clareza de ações a serem executadas. É um processo lento, mas revigora e incentiva de maneira imediata. A consultoria nos tira da bolha de pensamentos que nos isola. O olhar de fora pra dentro é essencial, mas nem sempre conseguimos fazê-lo. A consultoria tem nos ajudado muito nesse processo”, depoimento anônimo no formulário de avaliação da consultoria, 2022.

No exemplo acima, é possível perceber um outro modelo de abordagem, que segundo Schein (2008)  é chamado de consultoria de processos. Nesse modelo, caberá ao grupo ou organização “aprender a ver o problema por si mesmo ao compartilhar o processo de diagnóstico e estarem envolvidos ativamente na geração de uma solução” (SCHEIN, 2008, pág. 37). A função desse tipo de modelo é fazer com que a organização ou grupo aprenda a aprender, construindo um relacionamento e um entendimento de ajuda para se manter sempre proativo.

Diante de mais um caso, refleti sobre outra característica da filantropia comunitária: o  relacionamento³, cuja importância é sentida através da criação de vínculos. O relacionamento é uma atmosfera que liga as pessoas afetivamente , é aquilo que se faz sentir faz sentido, é uma via de mão dupla que se fortalece com o tempo. Tem a ver com estar presente, afinal, não há como nos tornarmos íntimos das organizações e grupos e consequentemente de suas comunidades se não temos contato ou não nos interessamos em conhecer mais sobre elas.

Tive o privilégio de atender as fundadoras e atuais diretoras de uma organização da sociedade civil que estava “nascendo”. Na conversa online, elas nos contaram que chegaram até o ICOM por colegas que atuam na área social. Emocionadas, relataram o início da história da organização, que começou com doação de brinquedos e eventos pontuais a crianças de uma comunidade vulnerável de Florianópolis. Enxergaram naqueles momentos pontuais e significativos que poderiam fazer mais por eles, estruturando e diversificando suas ações, bem como se formalizando. Logo, o interesse na consultoria foi compreender como funciona a gestão financeira, pois tinham interesse em fortalecer sua credibilidade e acessar benefícios fiscais. Eu não estava sozinha, convoquei logo a  coordenadora administrativo-financeira do ICOM para cumprirmos mais uma missão. Juntas,  fomos compreendendo a estrutura e rotinas financeiras e, a partir da realidade e capacidade interna da organização,  fomos indicando boas práticas para maior transparência e eficiência na gestão. Quando as demandas dessa organização extrapolou as competências internas do ICOM, encaminhamos a organização para um dos nossos parceiros técnicos, o Conselho Regional de Contabilidade de Santa Catarina, que possui um programa formado por contadores voluntários que atendem dúvidas contábeis específicas, por exemplo: balancetes, demonstrativos financeiros, fluxo de caixa, avaliação patrimonial e afins.

Ao contar mais uma história pra vocês, tenho a intenção de pontuar outras características da filantropia comunitária, como articulação, facilitação e honestidade³, que pode ser representada como a aproximação das esferas da sociedade, o estreitamento das margens, do cuidado com a dinâmica viva, humana e diversa das relações entre as pessoas.

Como guardiã de Relacionamento com a Sociedade Civil Organizada do ICOM, sempre estou envolvida com os editais que apoiam financeiramente as organizações e grupos de base. O ápice dessa prática é que esses apoios permitem uma ação combinada com  as consultorias, compondo uma metodologia estratégica e efetiva que realmente oferece meios de transformação social. Há um caso marcante de um grupo não formalizado e atuando em um dos territórios mais simbólicos da cidade que, ao receber a notícia de que foi contemplado com o valor de R$ 20 mil para apoiar livremente sua missão, duvidou se realmente queria ou não a doação. O grupo já havia tido  problemas relacionados à desconfiança e diligências na prestação de contas, onerando mais do que fortalecendo o seu trabalho de luta e voluntariado que realiza há anos em sua comunidade. Com o passar do tempo e a criação de vínculos, escutei que foi difícil fazer um plano de desembolso com sonhos que realmente desejam e não com rubricas engessadas em ações e pequenas entregas. Disseram ainda, que pela primeira vez, entenderam o sentido real da prestação de contas, que é demonstrar o impacto e potencial que aquela doação causou. É emblemático e está se tornando pauta urgente nos eventos sobre filantropia: a urgência de vias de financiamento mais acessíveis, autônomas e inclusivas.

“Poder contar com o suporte técnico nos deu maior segurança para fazer a gestão dos recursos e ações da melhor forma, respeitando a transparência, nossos planejamentos e ações, bem como construindo junto com a comunidade o nosso propósito”, Depoimento Grupo apoiado financeiramente pelo ICOM , 2022.

“Foi incrível. Recebemos muito apoio, atenção, fomos respeitados, orientados. Um relacionamento excelente de real interesse no que poderíamos oferecer, executar, articular. A consultora me prestou consultorias, esteve sempre disponível, aberta. Inclusive, colocando-se sempre como uma facilitadora”. Depoimento Grupo apoiado financeiramente pelo ICOM , 2022.

“O grupo ressalta e agradece a confiança em relação à transparência e à entrega. As orientações da consultora foram fundamentais para o amadurecimento do grupo e para o desenvolvimento de novos/outros processos mais estratégicos. O estabelecimento de uma relação humanizadora, baseada na confiança; o desenvolvimento do grupo enquanto instituição; os networkings estabelecidos. Principalmente, a importância e a diferença da captação de recursos em forma monetária – e os efeitos disso na prática. Anterior ao edital, havia receio em atuar com este tipo de recurso”, Depoimento Grupo apoiado financeiramente pelo ICOM , 2022.

Minha análise não ficaria completa sem destacar a importância da governança dos recursos financeiros, como mais uma característica da filantropia comunitária. Hopstein (2018) corrobora com esta visão afirmando que:

O fomento direto às organizações da sociedade civil e aos movimentos de base subsidia e valoriza de forma clara o empoderamento dos grupos mais vulneráveis de nossa sociedade, dando a eles condições de explicitar e enfrentar diretamente as relações de poder que os afetam negativamente. O fomento e o apoio às organizações da sociedade civil e aos movimentos sociais proporcionam também o fortalecimento de um diálogo sem intermediários, menos desigual e sem a tutela de organizações privadas ou estatais.

Se a filantropia comunitária pode ser definida como uma

“forma e uma força voltada para o desenvolvimento de recursos, talentos, capacidades e confiança locais” (HOGDSON E POND, 2018),

eu posso ser capaz de nomear como uma dessas formas e forças as consultorias do ICOM.

Ao relatar minhas vivências e conceitos, vislumbro as consultorias como uma cachoeira. Todas as quedas da cachoeira têm uma origem, um ponto central, mas a maneira como se dará a queda será diferente para cada admirador (a) dessa cachoeira. Ela nunca é igual a outra, às vezes ela está  mais cheia, às vezes mais rasa, a depender de fatores externos. Ela nos proporciona uma conexão com nosso ser interior. Ora, não é à toa que dizem que “um banho de cachoeira é capaz de energizar corpo e alma”. E é isso o que fazemos, facilitamos como essa queda chegará a cada pessoa.


1 Filantropia comunitária: uma estratégia de atuação com os territórios, não para eles. Disponível em<https://gife.org.br/filantropia-comunitaria-uma-estrategia-de-atuacao-com-os-territorios-nao-para-eles/>. Acesso em 01 de maio de 2023.

2 ICOM– Instituto Comunitário Grande Florianópolis.Relatório Final Fortalecer. Documento

interno. Uso autorizado pela organização. 2007.

3 Doan. Dana R.H. O que é filantropia comunitária? — Um guia para entender e implementar a filantropia comunitária. África do Sul, 2019.

HOPSTEIN, Graciela. Filantropia de justiça social, sociedade civil e movimentos sociais no Brasil. 2018.

ICOM – Instituto Comunitário Grande Florianópolis. Relatório Anual de Atividades. Florianópolis, 2012.

SCHEIN, Edgar H. Princípios da Consultoria de Processos: para construir relações que transformam. Tradução de Antonio Luiz de Paula e Silva. São Paulo:Peirópolis:  Instituto Fonte para Desenvolvimento Social, 2008.

Trecho retirado da Revista Expandindo e fortalecendo a filantropia comunitária no Brasil / Rede de 

Filantropia para a Justiça Social – Rio de Janeiro: Ape’Ku, Selo Doar para Transformar, 2021. 2a edição apud  “How Community Philanthropy Shifts the Power”.


Mariana de Assis é administradora pela UFSC e Estudante de Direito desta mesma Universidade.Mais de dez anos de experiência profissional nos setores público e privado, com forte atuação no Campo da Sociedade Civil Organizada. Atualmente é Coordenadora de Projetos do ICOM – Instituto Comunitário Grande Florianópolis e Estagiária do Poder Judiciário de Santa Catarina – 1 Vara Civel da Comarca de Florianópolis. Faz voluntariado como Conselheira de Direito do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente gestão (2022-2025) e Conselheira Fiscal da Politize.

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