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Um festival para chamar de nosso: impressões do que rolou no Festival ABCR e potenciais contribuições para a filantropia comunitária

Por Semíramis Biasoli – FunBEA – Fundo Brasileiro de Educação Ambiental 

A 15ª edição do Festival ABCR, uma conferência de captação de recursos da Associação Brasileira de Captadores de Recursos, aconteceu nos dias 03 e 04 de julho de 2023 na cidade de São Paulo.

O desafio de acolher e montar uma programação que atendesse a diferentes níveis de conhecimento, experiências e interesses, era um ponto chave e me parece que o Festival deste ano conseguiu dar essas respostas. O evento trouxe informações básicas para quem está iniciando nos desafios da captação, bem como pesquisas e práticas avançadas, trazendo conteúdos de ponta para profissionais experientes.

Numericamente maior, ele também apresentou uma maior diversidade das áreas profissionais presentes: não contando com um público apenas de captadoras e captadores, mas sim, integrantes das áreas técnica e financeira, além da forte presença de profissionais da comunicação. 

Cabe aqui um destaque: seriam sinais de mudanças na cultura institucional da captação, não a tratando como área estanque ou especializada, pelo contrário, apresentando-a como desafio coletivo a todo o quadro da organização?

As contribuições para quem quer se especializar em alguma estratégia específica de captação é grande, pois encontra no Festival um ambiente seguro de trocas, contando com o compartilhamento de práticas, trazendo suas aprendizagens e desafios, e principalmente, os caminhos encontrados para enfrentar tais desafios. Ou seja, trata-se do compartilhamento de aprendizados de forma genuína, oportunizando que esses conhecimentos alcancem outras organizações e contribuam com o crescimento da cultura da doação no Brasil.

Um ponto forte foi a captação com grandes doadores, pessoas físicas, incluindo captação por legado, apresentando experiências do continente europeu e americano, visando ampliar esse campo no Brasil, que ainda tem baixos números na captação com indivíduos, em comparação com outras partes do globo.

Outro destaque foi a visão de futuro: como a programação específica para juventude e os painéis abordando a Inteligência Artificial (IA) e sua presença cada dia mais forte, o que demonstra a necessidade das organizações e dos profissionais da captação terem-na como uma aliada, conhecendo-a e trazendo para o dia a dia de suas operações, buscando acompanhar as inovações.

Ponto interessante foi a presença da pauta ESG, que trouxe reflexões e caminhos para as OSCs encontrarem seus modelos de relações com empresas. O destaque a partir das provocações é a concepção de que a relação OSC-empresa precisa ser compreendida além de uma prestação de serviços versus a responsabilização da empresa, mas o enfoque na atuação em parcerias, de fato. 

E essa construção de parceria é de responsabilidade de ambos os lados: tanto o terceiro setor reconhecendo o potencial de contribuição do setor empresarial na Agenda 2030 a partir de aplicabilidades de ESG, como o empresariado reconhecendo na sociedade civil organizada, o potencial e expertise necessários para implementar ações no campo ambiental, social e de governança, contribuindo com desafios apresentados na Agenda 2030.

E assim, o Festival cumpre com seu papel de lidar com o multifacetado e vasto campo da mobilização de recursos, avaliando práticas, construindo conhecimentos e ferramentas que ancoram o dia-a-dia da captadora e do captador. 

Em nossa visão de fundo independente agregado junto à Rede Comuá, mais do que oferecer atualidades e ferramentas instrucionais para a profissionalização da área, participar do Festival fortalece a causa de nossa existência e compromisso com a pauta da decolonialidade e necessária descentralização de recursos na base.

Fortalece nossa atuação no campo da filantropia comunitária, aqui entendida como: “uma maneira de transferir poder para mais perto da base, para que a população local tenha maior controle de seu próprio destino [1].

É fundamental que a mobilização de recursos garanta que os mesmos cheguem nas comunidades, nos territórios e nas causas e, assim, cumpramos nosso importante papel na sociedade brasileira de enfrentar as desigualdades socioambientais, e contribuir com a garantia da democracia e respeito à diversidade, cara de nosso Brasil!

[1] Como a filantropia comunitária transfere o poder – Jenny Hodgson e Anna Pond (2019).

Semíramis Biasoli é doutora em políticas públicas de educação ambiental pela ESALQ/USP (2015), associada fundadora e secretária geral do FunBEA – Fundo Brasileiro de Educação Ambiental, advogada, especialista em Gestão e Meio Ambiente pela Unicamp/SP (2004), consultora e educadora ambiental para projetos, programas e políticas públicas socioambientais.

Imagem: ABCR.

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