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O que antes não tinha nome se tornou Filantropia Negra

Reprodução / Rosana Paulino / Bastidores, 1997. Imagem transferida sobre tecido, bastidor e linha de costura. 30 cm diâmetro

Por Jész Ipólito e Thânisia Cruz

A filantropia é apresentada como uma estratégia que transforma a ideia de doações em uma noção de investimento social capaz de impulsionar ações de transformação para comunidades e grupos em situação de vulnerabilidade. Apesar de seu recente papel contributivo para a democracia, a filantropia está impregnada de aspectos coloniais na distribuição de recursos ao redor do mundo, o que gera desafios para os beneficiários. Isso é o que compreendemos no artigo “A Descolonização da Filantropia está avançando?”, escrito por Allyne Andrade e Silva e Graciela Hopstein, para a Rede Comuá.

Com esse contexto, experiências vividas por clubes, associações, confrarias e personalidades negras parecem causar surpresa quando confrontadas com o universo da filantropia.

Em 2019, Tyrone McKinley Freeman escreveu sobre “Doações Negras ao Longo dos Anos”, onde relatou inúmeros casos de pessoas negras que fizeram doações para causas abolicionistas, educacionais e de justiça social nos Estados Unidos desde o século XIX. Esse modelo de doação gerado e distribuído dentro das comunidades negras continua a existir. No entanto, parece que agora ocorre em uma escala muito maior. Assim, o que antes era realizado, mas não nomeado e, às vezes, feito em segredo para garantir a segurança das pessoas negras, tornou-se o Mês da Filantropia Negra, celebrado nos Estados Unidos em agosto.

Reprodução / Tyrone McKinley Freeman, professor associado de estudos filantrópicos na Lilly Family School of Philanthropy.

Em uma das referências sobre o tema, temos como registro que o Mês da Filantropia Negra foi criado, em 2001, por Dr. Jackie Bouvier Copeland, fundadora da The Women Invested to Save Earth Fund (WISE), atual incubadora do programa de filantropia negra. Ao longo desses anos, foram realizadas quatorze campanhas abordando esse tema, sendo a primeira, de 2006, “Mulheres Negras Doam: Rumo a um Movimento Global”, profundamente emblemática para esta sequência de reflexões levantadas pela Rede Comuá, em setembro de 2023.

No Mês da Filantropia que Transforma, a Rede Comuá abraçou inúmeras iniciativas de debates, webnários, lançamentos de pesquisas, atividades presenciais e online ao longo do mê. Foi nesse contexto que aconteceu o evento online liderado mulheres negras sobre o campo da filantropia no Brasil e são estes insumos que serão apresentados nesta sequência de dois artigos.

Reprodução / Dr. Jackie Bouvier Copeland – Black Philanthropy Month Fundador and CEO The Women Invested to Save Earth (WISE) Fund.

A filantropia negra no Brasil

Caso tenhamos o interesse em analisar as doações intracomunitárias no Brasil sob a ótica das ações associativas da população negra, poderemos olhar também para o arranjo feito por escritores, quitandeiras e grupos religiosos que pagaram a alforria e a educação de seus pares. Porém, quando ela se constitui, nominalmente, como filantropia negra, ela se dá de outra forma e possui aspectos mais recentes de atuação.

Nos aspectos de desigualdade e conflitos raciais, o Brasil e os Estados Unidos possuem vivências comuns e é dessa forma que a filantropia negra chega ao Brasil com mais afluência após repercussão global dos assassinatos de Ahmaud Arbery, Breonna Taylor e George Floyd em 2020, como resultado da aproximação de organizações dos dois países que realizaram colaborações para construção de equidade racial.

No Brasil, os aspectos dessa filantropia negra fazem sua curva em outros caminhos. Se nos ângulos políticos de alforriar pessoas negras e fazer movimento social, as comunidades negras precisam se desenvolver como autossustentáveis, em angariar e distribuir suas doações, no âmbito do que é o fomento da filantropia negra, a população negra brasileira não possui patrimônios o suficiente para ver e fazer com que os fundos girem conforme o passado.

Foto de Shaun Peckham em Manchester, Inglaterra, 2020.

O que também não é uma inferência de que haja conforto em fazer filantropia negra nos Estados Unidos, pois a população negra do país é 12,5% e conta com apenas seis bilionários negros (Forbes, 2020) também citados como filantropos em diferentes ocasiões. Isso significa que, ainda que haja ações comunitárias ou pessoas com rendas que possibilitem doações milionárias, o esforço de alcançar a equidade a partir de investimentos sociais pode ser considerado irrisório.

Com isso, o que chamamos de “Mês da Filantropia Negra”, no Brasil, provavelmente, seja a repercussão da presença de poucas gestoras negras trabalhando em fundos de investimento social indicando os caminhos dos recursos. Em outras palavras, os aportes financeiros para se fazer filantropia negra chegam a organizações negras de forma limitada e não são gerenciados em sua totalidade por pessoas negras em suas fontes, levando as organizações da sociedade civil continuarem em estado de fragilidade. Sobretudo coletivos e organizações das regiões norte e nordeste.

Neste momento, no Brasil, essa precariedade no fazer desenvolvimento de forma democrática e olhando para quem sabe como o recurso pode ser usado adiciona outras demandas políticas de nosso tempo como, por exemplo, a concepção de autonomia não alcançada quando a dinâmica do recurso é colonial, como foi apontado pelo texto de Allyne Andrade.

Crédito: Débora Britto/MZ Conteúdo.

Além disso, o relatório ‘Where is the Money for black feminist movements?’ elaborado pelo Black Feminist Fund, apresenta dados cruciais para uma análise profunda da situação das organizações e grupos de mulheres negras em escala global. Apenas uma parcela ínfima, variando entre 0,1% e 0,35%, das doações feitas por fundações ao redor do mundo é direcionada às mulheres negras, meninas e pessoas trans. Isso revela uma disparidade alarmante no financiamento das iniciativas lideradas por mulheres negras. No que tange a orçamentos anuais, é importante destacar que mais de 60% das entidades feministas negras funcionam com orçamentos anuais inferiores a 50.000 dólares, evidenciando a escassez de recursos essenciais para a realização de sua missão crucial. Sendo que 81% dessas organizações negras não possuem recursos suficientes para atingir seus objetivos.

Reprodução / Black Feminist Fund / Hakima Abbas.

A co-fundadora do Black Feminist Fund, Hakima Abbas, nos convoca a pensar coletivamente sobre o cenário global da filantropia para mulheres negras, evidenciando sentimentos ímpares aos grupos feministas negros: dor, frustração, exaustão e resistência permanente. O relatório se faz instrumento da oportunidade de refletir e agir em direção ao antirracismo, na prática, no desenvolvimento de uma cultura de doação e filantropia desde aquelas que sabem o que é preciso fazer. Nesse sentido, a filantropia negra no Brasil enfrenta desafios contidos num contexto global de desigualdade e falta de financiamento para as iniciativas lideradas por mulheres negras.

Organizações de mulheres negras em diálogo sobre a filantropia negra no Brasil

Diante das diferenças do fazer filantropia que nos mantém negras, o objetivo é ouvir o que a realidade das mulheres negras nos aponta. Buscamos um fazer filantrópico onde possamos ir além de onde nós estamos, utilizando recursos mais efetivos e uma governança que nos permita ser quem nós somos, sem a necessidade de adequação de nossos conteúdos para caber em uma filantropia que se distancia de nós. Nesse contexto, as experiências compartilhadas por Valdecir Nascimento, Halda Regina, Durica Almeida, Maria Malcher e Terlúcia Silva durante o encontro on-line “Narrativas de mulheres negras sobre o campo da filantropia no Brasil” no dia 25 de setembro deste ano revisitam questões essenciais relacionadas à filantropia negra no Brasil.

Reprodução YouTube / Encontro virtual Narrativas de Mulheres Negras sobre o campo da filantropia no Brasil.

As dificuldades na captação de recursos, a dependência de editais nacionais, a importância de recursos flexíveis e a valorização da cultura negra são temas que permeiam a discussão sobre como direcionar os esforços filantrópicos de maneira mais eficaz. Além disso, a ênfase na formação política, no ativismo de mulheres negras e na passagem do bastão para a juventude revela a necessidade de abordagens inclusivas e progressistas na filantropia voltada para organizações negras no norte e nordeste do Brasil. No próximo artigo, exploraremos a realidade específica da filantropia para essas organizações, destacando as particularidades das regiões e as estratégias para superar os desafios enfrentados por elas.


NOTA: Este artigo faz parte dos resultados do projeto de pesquisa “Narrativas de Mulheres Negras sobre o campo da Filantropia no Brasil: perspectivas de futuro desde o Norte e Nordeste” da bolsista Jéssica Ipólito no âmbito do  Programa Saberes da Rede Comuá.

AUTORAS: Jész Ipólito é bolsista do Programa Saberes, ativista feminista negra e comunicadora & Thânisia Cruz é presidenta da ONG #ElasNoPoder e coordenadora do Projeto Katendê.

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